O Papel do Biólogo na Sociedade (no Ecossistema)

(actualisé le ) por Aléssio

O Papel do Biólogo na Sociedade (no Ecossistema) [1]

A humanidade inteira, se continuar a viver, não será simplesmente porque nasceu, mas porque terá decidido prolongar sua vida. Não mais existe espécie humana. A comunidade que se fez guardiã da bomba atômica está acima do reino natural, porque é responsável por sua vida e por sua morte; a cada dia, a cada minuto, será preciso que consinta em viver. Eis o que experimentamos hoje, na angústia (J.P. Sartre apud Roger Garaudy, 1968).

Não se pode discutir o papel do (a) biólogo(a) na sociedade sem considerar que tal profissional está compreendido em uma população, que está inserida em uma comunidade e que esta última faz parte de um ecossistema global formado por todas as relações que permeiam e regem a vida. Tal assunto também não pode ser abordado se não considerarmos o(a) biólogo(a) como um agente ativo de sua própria história e um (a) Homo sapiens como qualquer outro (a) que possui as mesmas necessidades e sentimentos, mas possuidor de um pensamento sistemático sobre a biologia e suas áreas afins.

A biologia como ciência

Entre as ciências, a biologia ocupa um lugar ao mesmo tempo marginal e central. Marginal, no sentido em que o mundo vivo constitui apenas parte ínfima e bastante «especial» do universo conhecido, de sorte que o estudo dos seres vivos parece que jamais deve revelar leis gerais, aplicáveis fora da biosfera. Mas, se a ambição última de toda ciência é a de elucidar a relação do homem com o universo, então devemos reconhecer á biologia um lugar central, pois ela é, entre todas as disciplinas, a que tenta penetrar mais diretamente no cerne dos problemas que devem ser resolvidos antes mesmo que possa ser colocado o da «natureza humana» em termos diferentes dos da metafísica. Por isso, a biologia é, para o homem, a mais significativa de todas as ciências. Sem dúvida, mais do que qualquer outra, ela já contribuiu para a formação do pensamento moderno, profundamente transtornado e definitivamente marcado em todos os domínios, filosófico, religioso e político, pelo advento da teoria da Evolução (Monod, 1971) e pelo recente advento das ditas ciências ambientais.

A sociedade (o ecossistema) moderna (moderno)

A sociedade moderna é marcada pela competição feroz, a indiferença em relação aos pobres e miseráveis, a exploração cruel dos que ainda trabalham, a violência urbana, a degradação do meio ambiente e outras tragédias que todos conhecemos. Como, então, seduzir, conquistar, convencer os indivíduos de que, mesmo com tudo isso, esse sistema em que vivemos «é o melhor, o mais avançado, o mais moderno, o mais desejável?». A solução foi persuadir os indivíduos de que nesse sistema temos possibilidades de ter «mais prazer, mais excitação, mais êxtases cotidianos» do que em qualquer outro conhecido (Costa, 2002)! Toda a sociedade encontra-se iludida e alienada com padrões de necessidades supérfluas e auto-destrutivos.

O futuro da humanidade e de todo o ecossistema global é incompatível com o modo de produção capitalista. O crescimento como finalidade da economia mercantil, a ideologia do consumo-obsessão, o consumo apenas dos objetos rentáveis como finalidade última, não só não correspondem á aspiração dos seres humanos, como nem sequer podem ser procurados sem conduzir o mundo à catástrofe. O verdadeiro crescimento é a melhoria das satisfações do ser humano na sua relação com tudo o que o rodeia, é a melhoria das condições que lhe permitem construir a sua personalidade, é a medida dos progressos realizados na satisfação das necessidades humanas fundamentais (Edmond Maire).

Qualquer sistema vivo (auto-organizador) é, evidentemente, relativamente independente dentro do ecossistema; produz o seu determinismo próprio para responder ás contingências exteriores, e as suas «liberdades» ou contingências próprias para responder ao determinismo exterior. Possui sua originalidade. Mas esta independência é dependente do ecossistema, o que quer dizer que se constrói multiplicando as ligações com o ecossistema. Assim, por exemplo, um indivíduo autônomo do século XXI constrói a sua autonomia a partir do consumo duma grande variedade de produtos, duma enorme quantidade de energia (tirados do ecossistema) e duma longuíssima aprendizagem escolar (que não é senão a aprendizagem do mundo exterior). Deste modo, quanto mais nos tornamos independentes, mais dependentes nos tornamos do mundo exterior; é este o problema da sociedade moderna que julga, pelo contrário, emancipar-se do mundo exterior, ao dominá-lo (Mansholt, 1973).

A compreensão da interdependência dos elementos que constituem o meio ambiente é um progresso da consciência universal, para a qual, recentemente, a biologia tem dado inegável contribuição. É aqui, a partir do que foi colocado, que podemos refletir sobre o biólogo e seu papel na sociedade.

O biólogo e o seu papel

Como diria o jornalista Washington Novaes (2002), não há nada mais irritante que ser chamado de ambientalista. "Como se o mundo pudesse ser dividido entre ambientalistas e não ambientalistas. Como se os primeiros fossem seres excêntricos, preocupados com florzinhas, passarinhos e verdinhos. E os segundos, seres despreocupados, porque o que comem não vem do meio ambiente, e nele não tem repercussões, o carro que usam não gerasse poluentes e não contribuísse para mudanças climáticas, a casa onde moram não fosse feita de materiais retirados do ambiente e com consequências nessa retirada, o computador que usam não utilizasse energia retirada do ambiente, a água que consomem não estivesse no ambiente, sem relação com o que se faça ao redor. E assim por diante.

Mas a despreocupação é muito vantajosa, permite agir - como político, como empresário, como cidadão - como se nada estivesse repercutindo no ambiente - no solo, na água, no ar, nos seres vivos. E assim continuar a ganhar a vida, ganhar dinheiro, despreocupado, transferindo os custos para a sociedade. E, nesta, para os que podem menos«. O biólogo, como»ambientalista profissional", deve ter uma formação abrangente e ao mesmo tempo específica na área afim. Entretanto, antes de qualquer coisa, o biólogo é um profissional que possui (ou deveria possuir) uma visão mais holística e global das inter-relações dos ecossistemas. É claro que existem biólogos não-ambientalistas, como descreve Washington Novais (2002), que estão mais preocupados com seus pequenos experimentos laboratoriais ou suas vidas acadêmicas como a maioria das pessoas costuma encarar seus respectivos trabalhos, de um modo morno e sem responsabilidade social.

O profissional biólogo, como todos os outros profissionais, devem ser agentes transformadores da realidade em que se encontram inseridos, com os pés fincados firmemente nas suas especificidades, procurando dar o melhor de si, mas com a mente na imensidão, buscando transcender sua condição individualista e viver, enfim, coletivamente. Para tal, devemos procurar atingir um estado de consciência ecológica.

A consciência ecológica é primeiramente a consciência de que o meio ambiente é um ecossistema; quer dizer, uma totalidade viva auto-organizada por si (espontânea) e é também a consciência da dependência da nossa independência, ou seja, na relação fundamental com o ecossistema, que nos leva a rejeitar a nossa visão do mundo-objeto e do homem insular. O homem tem de se considerar o pastor dos nucleoproteinados - os seres vivos - e não o Gengis Khan dos arredores do Sol (Mansholt, 1973). Porém, deve-se ter muito cuidado quando a questão ecológica for abordada, pois ela precisa ser encarada em conjunto e não de se centrar num ruralismo mítico ou num utópico retomo a natureza.

Como já foi dito anteriormente o homem é um ser essencialmente social que interage com a realidade através de vários meios. Um deles é a política que deveria ser transformada em preocupação ecológica para sanar as injustiças sociais pois acredita-se que não será possível resolver os problemas ecológicos sem antes resolver as graves questões sociais que assolam todos os ecossistemas antrópicos.

O que fazer?

De acordo com Leonardo Boff (2001), "o que nossa civilização precisa é superar a ditadura do modo de-ser-trabalho-produção-dominação. Ela nos mantém reféns de uma lógica que hoje se mostra destrutiva da Terra e de seus recursos, das relações entre os povos, das interações entre capital e trabalho, de espiritualidade e de nosso sentido de pertença a um destino comum. Importa, agora mais do que nunca, colocar cuidado em tudo. Isso significa: conceder direito de cidadania á nossa capacidade de sentir o outro, de ter compaixão com todos os seres que sofrem, humanos e não humanos, de obedecer mais a lógica do coração, da cordialidade e da gentileza do que à lógica da conquista e do uso utilitário das coisas.

Significa principalmente colocar o interesse coletivo da sociedade, da comunidade biótica e terrenal acima dos interesses exclusivamente humanos, como o egoísmo, a vaidade e o individualismo. «Parca é a consciência coletiva que pesa sobre o nosso belo planeta. Os que poderiam conscientizar a humanidade desfrutam despreocupadamente a viagem em seu Titanic de ilusões. Mal sabem que podemos ir ao encontro de um iceberg ecológico que nos fará afundar celeremente».
«Para cuidar do planeta precisamos todos passar por uma alfabetização ecológica e rever nossos hábitos de consumo. Importa desenvolver uma ética do cuidado ecológico».

Em seu texto «Saber cuidar: ética do humano», Leonardo Boff (2001) cita os nove princípios de sustentabilidade da Terra elaborados por entidades internacionais projetando uma estratégia global fundada no cuidado:

1. Construir uma sociedade sustentável.

2. Respeitar e cuidar da comunidade dos seres vivos.

3. Melhorar a qualidade de vida humana.

4. Conservar a vitalidade e a diversidade do planeta Terra.

5. Permanecer nos limites da capacidade de suporte do planeta Terra.

6. Modificar atitudes e práticas pessoais.

7. Permitir que as comunidades cuidem de seu próprio meio-ambiente.

8. Gerar uma estrutura nacional para integrar desenvolvimento e conservação.

9. Constituir uma aliança global.

Numa dimensão mais pragmática e objetiva, o estudante de biologia e o biólogo já atuante devem buscar ativamente melhores condições de trabalho, exigir de suas instituições uma formação de qualidade, estar atento sobre os trabalhos que estão sendo realizados em suas respectivas áreas e avaliar se tais trabalhos seguem uma ética eco-social, buscar uma integração maior com outras áreas como a geografia, a sociologia e as ciências ligadas à educação e participar mais de movimentos sociais e políticos.

Acredita-se que o biólogo é capaz de integrar com grande desenvoltura a mão de obra global que transformará a realidade atual com instrumentos e ferramentas específicas de áreas como a ecologia, genética, a botânica, micologia, a educação, a política, a arte, etc. Para que tal aconteça, precisamos resgatar e construir uma nova consciência ecológica e profética, não a de adivinhar o futuro, mas a de proclamar a lógica dos fatos que regem nossa história.

Referências

BOFF, Leonardo; BETTO, Frei; BOGO, Ademar. Valores de uma Prática Militante. 3. ed. São Paulo: Consulta Popular, 2001.
NOVAES, Washington. Ambientalista é a mãe. Pasquim 21, n. 2, p. 25. 2002.
COSTA, Jurandir Freire. Sexo é mercadoria. Jornal do Brasil, 13, março 2002. Caderno B.
MONOD, Jacques. O acaso e a necessidade: ensaio sobre a filosofia natural da biologia moderna. 3. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1971.
MANSHOLT, S. et al. Ecologia/caso de vida ou de morte. Lisboa: Moraes Editores, 1973.
GARAUDY, Roger. Perspectivas do Homem. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.

Observações

[1Filipe Martins Aléssio, Profº Adjunto, Universidade de Pernambuco.

Texto apresentado originalmente no Encontro Regional dos Estudantes de Biologia, São Luis do Maranhão, 2002.